Como se constrói o amor?
- Marta Faustino
- 17 de fev.
- 4 min de leitura
O amor não começa logo na primeira troca de olhares, nem numa atração física que o outro desperta em mim. Isso são sensações corporais próprias da fase da atração, mas isso não é amor!

O amor é uma construção, uma decisão, que necessita da fase da atração, para passar à do enamoramento, mas depois precisa de uma atitude minha, de me decidir por aquela pessoa e, aí sim, o amor vai-se solidificando, amadurecendo e construindo.
Todo o relacionamento começa no enamoramento! Estar enamorado é um estado de alegria e satisfação, onde o impulso para estar com a outra pessoa é muito forte; há o desejo de querer partilhar, escutar, falar, sentir, viver perto do outro todos os instantes.
Nesta fase a atenção está toda focado no outro, o pensamento está voltado para o outro que despertou interesse em mim. Por isso dizemos “passo o dia a pensar em ti”, porque, efetivamente, a nossa atenção está centrada nessa pessoa, revivemos as suas palavras, o seu toque, o seu perfume. Existe um encantamento! Tudo é belo, mágico, fácil, leve. O tempo passa a correr quando estão juntos e muito devagar quando estão afastados. E é a fase em que temos de ter muita cautela, para não avançar de cabeça num relacionamento, pois a típica frase “o amor é cego” é característico desta fase, onde não se vêm os defeitos, nem as imperfeições. Surge a admiração pelo outro, tudo o que faz é lindo, belo e perfeito. É preciso “gastar” tempo, para um conhecimento mais aprofundado.
O psiquiatra Enrique Rojas diz que, nesta fase, para que se comece a perceber se esta pessoa é ou não indicada para mim, se devo ou não avançar num relacionamento, é necessária uma comunicação aprofundada em 4 vetores: comunicação física, psicológica, social e cultural, e espiritual. De forma sucinta significa que:
1. Comunicação física: a atração física é fundamental, pois “se a outra pessoa não entra pelos olhos num primeiro momento, vai ser bastante difícil que se estabeleça entre eles uma comunicação mínima.[1]” O outro precisa despertar interesse em mim, mas não só a sua beleza, é um conjunto: a forma de ser, o estilo, as feições, a delicadeza, as mãos, os olhos, o sorriso, forma de falar, entre outros.
2. Comunicação psicológica: engloba a parte emocional de cada um (sentimentos, paixões, motivações) e a personalidade (forma de ser) e proporciona um caminho para entrar mais na intimidade do outro. Ter intimidade é ter um contacto mais próximo com o outro, entrar mais na sua vida, na sua história, na forma de pensar, ser, de reagir, o que o motiva, o que dá sentido na vida, para onde caminha, os seus sonhos, traumas, compreender a sua maneira de funcionar e de sentir o mundo ao seu redor. Portanto, o enamoramento precisa ser um caminho para uma maior intimidade um com o outro, mas não falamos de relacionamento sexual. Isso não pode ser para este momento, senão atrapalha todo o processo de conhecimento, amadurecimento e discernimento. “Nos nossos dias estamos a assistir ao espetáculo, cada vez mais frequente, da perda de intimidade; isto é, que o ser humano ensina o que tem por dentro à primeira mudança e a qualquer pessoa, sem o menor recato de si próprio. Este facto é muito negativo e reflete escassa qualidade pessoal, pouca vida realmente privada e um contínuo viver para fora. Talvez o exemplo mais patente e generalizado seja a perda do pudor.[2]” (p.40) Psiquiatra E. Rojas.
3. Comunicação social e cultural: Rojas diz-nos que é importante que ambos pertençam a níveis culturais parecidos, pois “ter cultura significa ter uma interpretação da vida, possuir uma sabedoria que dá critério para escolher, para seguir este ou aquele roteiro.” (p.41) e, por isso, a maneira como eu vejo e sinto a vida se for muito diferente do outro vai criar demasiados atritos, porque o outro não vai compreender a minha visão de vida, de ser e estar.
4. Comunicação espiritual: Rojas diz-nos que é o “olhar juntos na mesma direção” (p.41). É tentarem ver na mesma linha até à meta, portanto, terem objetivos comuns, conseguirem ter uma visão ampliada do seu horizonte, terem as mesmas crenças sobrenaturais “é a melhor maneira de manter umas relações estáveis e duradouras, que ajudarão a ultrapassar tantas dificuldades que tem a vida.”
A fase do enamoramento vai passando e, quando tomamos a decisão de amar aquela pessoa, o tempo vai acalmando, a efusão inicial vai serenando e vamos caindo na realidade, na verdade desse amor. Isto significa que estamos a conhecer em maior profundidade aquela pessoa e aceitamos os seus defeitos, qualidades, formas de ser, sem exagerar nas qualidades. Como o amor é uma eleição, ele traz paz, sossego, tranquilidade, segurança que são ingredientes fundamentais para um relacionamento prazeroso e duradouro.
Concluindo, o amor é uma decisão e uma construção diária, que necessita de diálogo, partilha, renúncias, compromisso, responsabilidade e fidelidade, para chegar à felicidade.
[1] Rojas, E. (1994). Remédios para o desamor: como enfrentar as crises do casal. Gráfica de Coimbra.
[2] Rojas, E. (1994). Remédios para o desamor: como enfrentar as crises do casal. Gráfica de Coimbra.
Marta Faustino
Psicóloga Clínica
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